A BOLSA DE VALORES
Difícil a tarefa de se retratar um sujeito. A tradição renascentista nos ensinou a fazê-lo, a partir da representação
da aparência física do modelo. Mas, o que seria, exatamente, um retrato? Eu diria que seria uma imagem
representativa de singularidades de determinado indivíduo – uma espécie de enfatização dessas particularidades,
que fazem com que distingamos esse ‘um’ dos demais.
Selma Andrade se propôs a retratar pessoas do seu círculo íntimo – pessoas que, assim como todos, se
constituíram em determinado contexto sócio-cultural. Por que a artista teria optado por prescindir da
representação da face (símbolo maior da individualidade) dos retratados? Não cheguei a interrogá-la sobre essa
estratégia usada por ela, mas presumo que ela não tenha admitido a possibilidade de revelar, através da face,
algo tão significativo, quanto o que poderia ser encontrado em suas bolsas: balas, remédios, celulares, chaves,
livros, cadernetas, pequenos aparelhos eletrônicos, cigarros, porta-níqueis, pen drives, cosméticos, carteiras e
dinheiro – notas expostas, sem o menor pudor.
Bolsas são ‘lugares’, usados para transportarmos uma espécie de miniatura do nosso universo de necessidades,
desejos e ferramentas de sublimação – objetos mais ou menos íntimos, mas que, reunidos, podem funcionar
como uma chave para possíveis leituras da individualidade daquele que carrega a bolsa. Podemos receber tais
objetos, como a bagagem portátil e cambiável de um sujeito. E em um mundo, em que se é valorizado pela
capacidade de acumular bens de consumo, talvez, não seja incorreto afirmar que somos aquilo que possuímos.
A partir desse insight, Selma Andrade produz uma série de retratos, a partir da lógica do consumo. E se alguns
objetos são recorrentes nessas representações, lembremos que amass media não discrimina os consumidores.

Belo Horizonte, maio de 2014

Luiz Henrique Vieira