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MARINALDO SANTOS 01I09I2018 a 06I10I2018

Colagens de azulejos de Belém bandeirolas de procissões desenhos nublados de figuras / cotidiano vivenciado nos desenhos nas telas nas montagens coroas recortadas de lata dourada prateada encimando assemblages sagrados corações ou corações de galinha palavras do dia-a-dia decorando os compartimentos de armários verticais / horizontais subdivididos em planos quadrados retangulares armários desenhados pintados montados em madeira irústica (“parti do armário meu pai trabalhava com madeira fazia as peças para a casa brincávamos de esconder” com o fascínio do “dentro do armário”). Daí ser a constante de Marinaldo o armário fechado ou com prateleiras com objetos a partir do material colhido na cidade na casa na rua nas festas no restaurante no bairro. Mas o desenho geométrico se impõe nos quadrados ou retângulos da superfície para o observador. Pinturas e compartimentos povoados com imagens de garças pedaços de madeira colorida pregos enfileirados martelados louças latas recortadas amassadas inscritas com datas pratos de ágata decorados objetos do mercado perfis de lata arames condutores retorcidos lembretes balões ou “splashes” de quadrinhos a figura ou o carro do Batman a constante dos pés triangulares dos armários montados ou pintados e a projeção dos apertos de cada dia / “Bangalô do agiota“ / “Pago hoje” / “Aparelho de fazer gato medidor de luz”. E de repente nada de gambiarras mas um construtivo como o foram o “Armário do bicho“ (1997) seco de invejável reducionismo cromático ou “Trouxudu“ (2004) engenho/montagem. A terceira dimensão emerge naturalmente em Marinaldo decoradas as secções de suas construções verticais ou horizontais pictóricas ou nas montagens com acréscimos apenas inscritos as datas insinuadas as figuras humanas nebulosas justapostas às decorações de cromatismo aplicado com liberdade total: retoma a constante do Círio o açaí elementos da paisagem visual de Belém enfim o Porto o Mercado colagem completada pelo desenho com a nostalgia da velha fotografia aposta o Pará com o sangue que se esvai pelo caudal dos rios em direção ao Brasil central. E de repente uma composição vertical fora de série : supremacia visual de LP’s e três cintas masculinas sobre superficie vasta e formalmente reducionista com enigmático rosto linearmente esboçado. 2. Afinal, Marinaldo Santos é um artista do Pará. Onde, em Belém, suas obras se vêem por toda parte. Autor de trabalhos que conheci em inícios dos anos 1990 quando num júri paraense. Daquele tempo, guardo um desenho… sempre um armário. Estudando em escola do SESI, aos 12 anos trabalhava em fábrica de castanhas, e depois, em tempos difíceis, numa serraria recolhendo o pó da madeira. Aos 15 já saiu de casa vivendo por sua conta, num certo período distribuindo a Folha do Norte, até começar a expor em coletivas no Pará a partir de 1983, assim como apresentando-se em individual pela primeira vez em Belém, na Galeria Elf, em 1985. Marinaldo: urbano-pop Um artista do Pará. Estado poderoso, que projeta de forma explícita um orgulho, vinculado sem dúvida à sua riqueza e vastidão territorial. Com contribuição cultural que há tempos não se limita mais apenas à presença dos projetos grandiosos do arquiteto Antonio José Landi, nem à herança de Emílio Goeldi. Mas que lembra a ação do arquiteto Paulo Chaves. E hoje nem repousa mais apenas na tradição fotográfica (Luiz Braga, e que o digam com mais precisão Marisa Mokarzel e Rosely Nakagawa), ou em sua gastronomia reconhecida. Mas que nas artes visuais há muito chama nossa atenção seja com as obras de inspiração indígena na cerâmica de Ruy Meira, como no trabalho de Osmar Pinheiro e Sarubbi. Mas de maneira incisiva com a arte de Emanuel Nassar, a resgatar, ao lado de Luiz Braga, a luz, a cor e a visualidade do magnetismo dos subúrbios e de uma cidade como Belém. Captadas também nas montagens de Emanuel Franco com pinturas populares dos ribeirinhos. E mais recentemente, na vivência, em Marabá, por Marcone Moreira, em variações a partir de embarcações de rio, com partes seccionadas, isoladas e recompostas livremente em apreensão da memória de uma realidade. 3. Há muito já não acreditamos na falácia da universalidade da arte. A arte de qualquer lugar somente é decodificável a quem possui uma iniciação a ela. Ou uma cultura comum, enfim. Se raro é o europeu ou norte-americano ou qualquer estrangeiro que se sensibiliza com a arte de nosso país cujos desdobramentos nós, sim, conhecemos através de seu desenvolvimento, seria falso igualmente pretender que se conhece a arte chinesa, japonesa ou coreana apenas por percorrer museus desses países. Podemos ficar impressionados com a técnica ou o virtuosismo de seus autores, sem dúvida. Porém apreender, avaliar de forma cabal seu sentido, sem conhecer a cultura, a filosofia de vida, a história, seria pretensão muito audaciosa. Assim como desejar poder definir com precisão o limite entre o popular e o contemporâneo… A arte do “outro” ou tem a conotação de fantástica, ou é exótica, se não se dilui no global. 4. Imagine-se então quando nos aproximamos do universo do popular. Nem todo brasileiro que vive nas grandes cidades de nosso país se sente tocado, ou é sensível ao dado popular. Seja do Brasil, seja do México, da Guatemala, do Peru, ou de qualquer outro país dono de riqueza como a que possuímos no Ceará, Pará, Mato Grosso, Goiás ou no interior de Minas, dos sertões do Nordeste, e mesmo da imaginária do interior de São Paulo. No entanto, é exercício de pura educação visual ocorrer a sensibilização do olhar para o universo maravilhoso desta arte tão próxima de nós. Marinaldo Santos nos oferece agora com sua arte urbano-pop a oportunidade de podermos apreciar a criatividade que sai de seus olhos e de suas mãos, atentos ao cotidiano e aos sabores de sua cidade, seu tempo e sua circunstância. Olhos que buscam em seu entorno os materiais, as palavras, as cores que resgata, recorta, reúne e constrói com áspera serenidade. E que projeta em nova imagem para nosso encantamento. Aracy Amaral